
Esse percurso atravessa uma zona pouco povoada, mas de grande singularidade e beleza. É uma estrada que vai desde a aldeia da Lamarosa atravessa uma boa parte da charneca ribatejana e entra no vale do Sorraia.
Mais ou menos a meio caminho há uma outra aldeia de casas dispersas, que se chama Escusa. Numa bifurcação de estradas que agora foram já alcatroadas, havia um pequeno café.
Tinha o hábito de parar aí, pois o café pelo ambiente e pela decoração era delicioso.
Esse café recordava-me as antigas tabernas provincianas, que tão típicas eram e que hoje desapareceram completamente.
Lembro-me bem delas, cheias de clientes logo pela manhã cedo.
Recordo uma taberna da minha terra, Almeirim, que havia na esquina da Pontinha, por onde eu em miúdo passava envergonhado a caminho da escola. Nessa taberna os trabalhadores rurais bebiam logo pela manhã os seus copos de vinho branco da casta Fernão Pires e por isso diziam…”venha lá um copito do Fernão Pirão”. A maior parte dos que iam para a duras tarefas do trabalho no campo, paravam ali as suas bicicletas onde fixavam num suporte as suas enxadas e entravam na taberna empurrando as duas meias portas de vai e vem. Lá dentro ouvia-se a algazarra, expressão do convívio. Há tarde, quase ao sol posto, lá voltavam a entrar, para se recomporem da energia dispendida durante o dia.
O café da Escusa, fazia-me lembrar tudo isto, mas tinha ainda mais sabor.
O dono do café era uma simpática criatura, que me recebia sempre com uma natural expressão do seu mais intimo prazer, por me ver entrar naquele estabelecimento e sem me conhecer de lado nenhum. Era o sinal da sua pureza de carácter e também do isolamento que ali se vivia e ainda se vive.
Numa das três pequenas mesas estavam sempre sentados vários idosos, que naquele café encontravam o meio mais agradável de passarem o seu tempo. Não havia algazarra e todo o ambiente era muito calmo. Uns jogavam ao “dominó”, algumas vezes à “lerpa”, outros liam em paz o jornal que o café lhes disponibilizava. O café da Escusa era o único reduto do convívio social daquela aldeia, onde as pessoas tinham o hábito de ir e conversar.
Quando ontem lá passei o café da Escusa estava fechado. Parei o carro estranhando ver aquele delicioso café encerrado. Apetecia-me voltar a entrar nele e voltar a beber um café apreciando o seu tranquilo ambiente.
Dirigi-me a dois senhores que tinham reparado em mim. Perguntei-lhes sobre a razão pela qual o café estava fechado.
Transcrevo na íntegra o diálogo que tivemos depois dos amáveis cumprimentos.
Disse-me logo um deles. “ Vieram aí uns gajos duma coisa chamada Asaí…que obrigaram o Toino a fechar o estabelecimento. Parece que o queriam obrigar a fazer obras, mais um orinol e ainda mais não sei bem o quê. Como as obras estão caras o Toino nunca mais ia ganhar para as pagar…olhe decidiu fechar o negócio e foi-se embora para Lisboa para casa duma filha.”
O outro acrescentou. “ A gente ainda o tentou convencer a na fechar o café. Dissemos-lhe mesmo que se eles cá voltassem, já de cá na saíam inteiros…mas o Toino na quis complicações e fechou mesmo”
E os dois disseram ainda sem se interromperem, mas completando-se um ao outro.
“Aquele café faz-nos muita falta”. “ Era ali que todos nos juntávamos e nos entretínhamos”. “Agora já nem o jornal temos para ler e se queremos saber alguma coisa do que se passa, temos de nos fechar em casa a ver a televisão”. “ Na percebo aquela coisa das duas casas de banho, primeiro as mulheres raramente aqui param, segundos a casa de banho, até podia ficar para elas, pois os homens cá da terra sempre mijaram atrás dos chaparros.”