quinta-feira, 1 de julho de 2010

"Mais Europa" significa menos Portugal.

A “ESCOLA” GEOPOLÍTICA PORTUGUESA E A U.E.

de: João José Brandão Ferreira
TCor/Pilav(Ref)

13/06/10

Em Portugal temos muita dificuldade em racionalizar conceitos, por isso raro os enunciamos.
Nós não discutimos a vida, limitamo-nos a vivê-la. Não nos preocupamos com fins nem com princípios. Resolvemos a coisa entre uns pires de caracóis e uma imperial fresquinha. Pelo meio exalamos frases de profundo sentido como “a vida são dois dias”; “ele é que a sabe toda”; “essa é que é essa”, etc. E há sempre um que atira, “olha-me aquela gaja”. Bom, até este último arrobo de marialvismo, parece ter os dias contados…
Será que fomos sempre assim? Que eventos históricos nos moldaram?
No princípio do século XV, estando as fronteiras estabilizadas, a crise político/dinástica resolvida, o estado forte e a nação “formatada” e unida, pôs-se a questão da consolidação/expansão do país. Uma era corolário da outra e vice-versa.
Confrontados com a realidade geopolítica - que configura até hoje e sempre, uma ditadura geográfica – a elite política portuguesa decidiu atacar Ceuta. Um lote apreciável de razões ditou a ida. A alternativa seria progredir pela Andaluzia em direcção a Granada, mas tal foi considerado perigoso, pois aquele território era considerado zona de expansão natural de Castela e nós dificilmente nos aguentaríamos com tal poder, que sempre foi superior ao nosso. Para equilibrar as coisas foi-se mantendo a Aliança Inglesa (estabelecida em 1373) … até hoje.
Com o pé em Ceuta foi-se, naturalmente, costa abaixo e mar adentro.
Com a Europa do Centro, Sul e Norte, nomeadamente as zonas costeiras, mantinhamos um progressivo comércio desde o século XII e também uma estreita ligação à Borgonha – donde nos tinha vindo o Conde Henrique, os monges de Cister e o apoio de S. Bernardo de Claraval, para a Reconquista, a implementação da Ordem do Templo e para a própria independência.
Estas relações com a Borgonha tiveram notável incremento quando a Infanta Isabel, filha de D. João I casou com o Duque da Borgonha, em 1430. Também, no século XV, se tentou estreitar os laços com o Imperador da Alemanha, não só por razões de comércio (e troca de saberes) mas,outrosim, para obter apoios político/diplomáticos que nos defendessem da França e dos poderes peninsulares.
Ora estas duas vertentes, ir para o Centro da Europa ou para o Sul, Atlântico e Norte de África, vieram a focalizar-se em dois príncipes da Casa Real Portuguesa: D. Pedro, o das sete partidas e D. Henrique, o navegador.
Em termos modernos pode dizer-se que estes dois homens deram origem a dois conceitos ou duas escolas de geopolítica portuguesas que em termos sucintos se podem enunciar da seguinte maneira: D. Pedro privilegiava as relações com a Europa culta e mais rica (ele tinha visitado os principais reinos europeus durante três anos…), embora não se opusesse à exploração do Atlântico, sobretudo o central. Opunha-se, no entanto a um grande esforço no norte de África, onde não vislumbrava uma mais valia em termos de custo/eficácia.
D. Henrique, não se opunha às relações com a Europa, sobretudo em termos de comercio,embora defendesse a neutralidade nas disputas europeias, mas estava muito empenhado na luta do norte de África, que encarava como a continuação da Cruzada e nas navegações costa africana abaixo e na colonização dos arquipélagos atlânticos. A isto não seria estranho, por certo, o facto de ser administrador da Ordem de Cristo e dever ter em conta os seus objectivos político-religiosos. Foi assim que o plano para se chegar ao Reino de Prestes João e à Índia começou a tomar forma.
As coisas foram-se naturalmente ajustando e a conquista de Marrocos veio a revelar-se impossível, tendo ficado isso claro no reinado de D. João III, embora a última praça, Mazagão, só tivesse sido evacuada (e com oposição!), em 1769. Neste âmbito teve D. Pedro razão.
Uma ligação mais forte à Europa veio a revelar-se, também, infrutífera, sobretudo depois da França ter “engolido” o ducado da Borgonha e a “concorrência” tivesse feito gorar a nossa presença em termos de feitorias comerciais. A Reforma virou as potências protestantes e calvinistas, contra nós, o que foi agravado pela perseguição aos judeus e, finalmente, a coroa dual Filipina tornou-nos inimigos dos inimigos de Espanha. E aqui se goraram as ideias do Infante D. Pedro...
O mar tornou-se assim a nossa janela de liberdade e oportunidade e os nossos “impérios” asiático, primeiro, brasileiro, depois e africano, por último, fizeram o resto. Quer isto dizer que os assuntos europeus nos foram alheios? De modo nenhum. Dali nunca mais veio boa vizinhança nem qualquer apoio que não quisesse trocar um chouriço por um porco. E sempre que o nosso país se encontrou no caminho dos interesses das grandes potências europeias, viemos a sofrer com isso. A Guerra da Sucessão de Espanha, a Guerra dos Sete Anos e as Guerras Napoleónicas, são disso exemplo eloquente. Ou seja, sempre que nos envolvemos nas querelas europeias, saímos a perder.
Esta dualidade das “escolas geopolíticas”, mantêm-se com nuances e diferenças de enfoque, até hoje.
Os leitores farão o favor de pensar quantos portugueses têm, hoje em dia, alguma noção disto, e entre estes quantos políticos no activo, entende as subtilezas de Pedro e de Henrique.
*****
No passado dia 12 de Junho, comemorou-se em Lisboa e Madrid, com alguma pompa e circunstância, os 25 anos da adesão de ambos os países à então Comunidade Económica Europeia (CEE).
Não vejo grandes razões para festas e, ao contrário do que parece ser uma quase globalidade de encómios, eu encontro um lote não despiciendo de erros, maus caminhos e futuro cinzento, para não dizer outra coisa. Muito sucintamente:
Portugal entrou (e quis entrar) para a CEE de qualquer maneira, sem estar preparado e numa posição fraca; depois quis fazê-lo juntamente com a Espanha o que considero um erro político/estratégico; fê-lo, ainda por cima, mandando-se de cabeça, sem salvaguardar interesses, ou prudência no baixar das defesas; pior ainda, mergulhou na CEE como se isso se tratasse de um objectivo permanente histórico – que não deve ser – em vez de considerar ser um objectivo actual importante e, por isso, transitório, que é o aconselhável. Isto é importante? Direi que é fundamental e tal implica um tipo de postura muito diferente um do outro.
A seguir embandeirou-se em arco e foi um fartar vilanagem: com os fundos estruturais, de apoio, etc., a correrem com uma facilidade nunca vista, perdeu-se a cabeça e desatou tudo a gastar a esmo ao passo que se permitiam todos os desatinos. E mais importante, foi-se sempre adiando as reformas estruturais; a definição de objectivos estratégicos e o estabelecimento de áreas prioritárias de investimento. Ao passo que, alegremente, se ia destruindo a agricultura, a pesca, a indústria e se colocavam as pequenas e médias empresas com a corda na garganta.
A especulação ganhou asas. E apostou-se no cimento, esquecendo-se que parte deste transformado em estradas ia servir os exportadores estrangeiros (nomeadamente espanhóis e franceses, que são os mais próximos) a colocarem os seus produtos cá mais rápido, logo, mais barato, ajudando assim a acabar com o que ia sobrevivendo. A “integração” com o mercado espanhol, do modo como é feito, é um crime de lesa pátria pois vai provocar umas novas Cortes de Tomar de 1581, sem ser preciso o recurso às armas… Ninguém apresentou, entretanto, contas do que foi realizado.
Em súmula, encontramo-nos hoje, depois de 20 anos a viver acima das nossas possibilidades, com dinheiro “emprestado”, completamente endividados e com o aparelho produtivo em frangalhos; o estado (por via dos partidos) pesadíssimo e … sem mais valias para o futuro! Acresce que agora a crise atinge todos os países da UE, por causa de práticas especulativas indecentes, típicas do mais puro capitalismo selvagem e que ninguém diz ter-se apercebido. É caso para dizer: belas competencias!
Ou será que tudo isto foi acelerado e feito de propósito, para agora se fugir para a frente e tentar impôr medidas mais escravizadoras da população e diluidoras das nações europeias a que os mais esclarecidos comentadores e políticos apelidam de “aprofundamento da Europa” ou “mais Europa”?
Não deve ser por acaso, que os poderes instituídos, fogem como o diabo da cruz – eles até querem acabar com a cruz… - em explicar e consultar os seus povos, sobre as principais medidas que têm sido implementadas.
Que se comemora então nos 25 anos de adesão à CEE? A democracia? Mas ela não foi instituída em 1974, perdão, 75? Precisamos de supervisão?; para vivermos em segurança?, mas quem tem garantido a segurança na Europa nos últimos 65 anos tem sido a NATO e o chapéu-de-chuva nuclear dos EUA, não a UE! Aliás, esta, aparentemente, nem se quer defender e, no momento, está incapaz de o fazer. Será por vivermos em paz? é certo que na Europa há paz desde 1945, embora com uma “cortina de ferro” a dividi-la durante 50 anos, até se “inventar” a guerra na ex-Jugoslávia. Mas a paz é ilusória, não só porque andam centenas de milhares de tropas espalhadas pelo mundo a tentar “apagar fogos”, como a situação no continente é contingente a muitos factores. É por se ter aberto as fronteiras e deixado invadir os paises da UE, por hordas de emigrantes inventando-se um multiculturalismo de fachada, pois não é sentido nem realizável? E o que se ganhou com isso? Não está à vista, que estamos no limiar de uma vasta explosão social contra este estado de coisas?
Nem tudo está mal, é certo. O nível de vida material aumentou, embora o espiritual tenha diminuído; a cultura melhorou (o analfabetismo encartado, também); a facilidade de circulação, o aumento do turismo, a assistência social, tiveram notáveis melhorias, etc.
Mas no seu todo, a Europa está velha, com uma demografia negativa, sem liderança, sem os seus esteios tradicionais e minada pelo relativismo moral.
Sinceramente não percebo muito bem o que se quis comemorar.
Mas sei uma coisa: aquilo que querem dizer com “mais Europa”, é o fim de Portugal. Não era isso, seguramente, o que o Infante D. Pedro divisava e que todos os portugueses conscientes, devem tentar impedir.

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